Uma vergonha sem paralelo - Porto 0x4 Club Brugge
Uma vergonha sem paralelo
Na última terça-feira (13), o Futebol Clube do Porto sofreu uma das maiores humilhações da sua história recente. Quiçá até de toda ela, desde o longínquo ano de 1893. Não apenas pelo espetáculo de horrores ocorrido no relvado do Dragão, mas sobretudo pela criminosa aberração que aconteceu no exterior do estádio, depois do jogo.
O jogo
Depois de uma exibição muito bem conseguida em Madrid e de uma vitória mais ou menos tranquila frente ao Desportivo de Chaves pelo campeonato, os dragões tinham a tarefa de vencer, em casa, o Club Brugge. Como é óbvio, toda a gente minimamente informada sobre futebol sabia que o Brugge era uma equipa com bons argumentos e capaz de causar dificuldades ao Porto – e Sérgio Conceição e os seus jogadores decerto também o sabiam. Até posso relembrar, se tal servir de cartão de visita aos belgas, a ocasião em que travaram o Paris Saint-Germain do trio Neymar-Mbappé-Messi na Champions League, há precisamente um ano (15/09/2021). Contudo, para todos os efeitos, o Brugge foi parar ao grupo do Porto como o representante do pote quatro. Também é, indiscutivelmente, a equipa com maior escassez de qualidade individual se comparada às restantes três. No entanto, o Brugge não precisou sequer de fazer uma exibição brilhante para gravar uns claríssimos 0-4 no placar do jogo.
Viu-se um Porto completamente perdido em todas as frentes.
A nível estratégico, não sabia o que estava a fazer. E, nesse quesito, apontam-se culpas a Sérgio Conceição, que se mostrou pouco capaz de responder à boa organização tática dos belgas (apesar de as circunstâncias do jogo também não terem facilitado).
A nível defensivo, não sabia o que estava a fazer. O ingénuo Zaidu e o extremo João Mário fizeram exibições defensivas para esquecer, principalmente o último, que já nos tem habituado a isso recentemente. Pepe, por norma um talismã para os dragões, fez uma exibição surpreendentemente fraca. David Carmo, além de ter encarado o desafio que é para um central pouco veloz, como ele, uma frente de ataque adversária rápida como a do Brugge, ainda não levava sequer uma mão cheia de jogos pelo clube da Invicta.
A nível ofensivo, também não sabia o que estava a fazer. E, neste caso, faço das palavras do excelente comentador Tomás da Cunha as minhas: “A nível ofensivo, este jogo trouxe de volta o Porto mais sombrio da era Conceição. Uma equipa a querer chegar rápido à área adversária, mas sem critério para o fazer.”. O próprio Tomás sublinhou, também, a importância de Taremi no jogo ofensivo dos dragões e a falta que este fez no encontro, assim como a complicação que é não ter um “oito” à imagem de Vitinha, observações com as quais eu concordo. Em suma, todos tiveram a sua dose de culpa. Ou será que não?
Já me dei ao luxo de explicar, no último parágrafo, as razões (ligeiramente superficiais, mas certeiras, na minha opinião) por trás de um desempenho defensivo (e não só) ridículo da equipa do Porto. Mas se as exibições mal conseguidas da dupla de centrais foram uma surpresa e podem ter sido meramente pontuais, algo que acontece a todos os jogadores, as fracas prestações de Zaidu e de João Mário não surpreenderam. Mas será Zaidu o culpado de não ter talento suficiente para ser titular num clube como o Porto? Será João Mário o culpado de ter sido transformado, de forma forçada, a lateral direito, em contraste com toda a sua formação, em que jogou como homem mais ofensivo? E será Sérgio Conceição o culpado por estas “escolhas”?
Dossiê “lateral-esquerdo”
Zaidu chegou ao Porto em 2020, contratado para ser alternativa a Alex Telles. Contudo, mediante a saída do brasileiro, Zaidu agarrou o lugar, sendo titular nessa época (2020/21). No entanto, era evidente a falta de qualidade do nigeriano, apesar de toda a sua entrega e humildade. Sérgio pediu um novo lateral esquerdo. O Porto falhou (ou talvez não tivessem passado de rumores) Giuseppe Pezzella, Matías Viña e outros. Depois do susto de morte em Famalicão, Conceição explodiu, e a resposta da SAD foi rápida: Wendell foi contratado por 4.3 milhões de euros. Vindo do Bayer Leverkusen, clube com o qual tinha apenas mais um ano de contrato, Wendell era visto pelos adeptos alemães como um jogador limitado, mas, à semelhança de Zaidu, esforçado e, fora dos relvados, bom moço. Wendell fracassou. Zaidu continuou então como titular em 2021/22, participando no título histórico do Porto – um campeonato que finalizou com impressionantes 91 pontos. Todavia (e não obstante o golo épico marcado por Zaidu na Luz), essa campanha incrível não se deveu a ele, mas foi, na verdade, apesar dele. Com dois laterais esquerdos abaixo do nível necessário, a SAD teve um mercado de inverno e um longo mercado de verão para retificar o problema. Não o fizeram. E duvido muito que ter apenas estes dois jogadores para a posição de lateral esquerdo seja o desejo de Sérgio Conceição. Caso o seja, o culpado, nesta situação, também é ele. Mas tenho muitas dúvidas quanto isso.
Dossiê “lateral-direito”
Um trabalho de mercado ainda mais catastrófico foi feito no lado direito da defesa. Se em 2017/18 Conceição tinha Ricardo Pereira, Diogo Dalot e Miguel Layún (este último apenas na primeira metade da temporada), em 2018/19 o veterano Maxi Pereira assumiu a posição, tendo como alternativa, na primeira metade da época, o brasileiro João Pedro, que mal chegou a vestir a camisola do Porto, tal desencorajadora era a sua qualidade, e, na segunda metade, Wilson Manafá. Em 2019/20, Renzo Saravia chegava para assumir de vez a posição. Foi um fracasso retumbante. Durante a temporada, Manafá, jogador nitidamente limitado, partilhou a posição com Jesús Corona, extremo durante toda a sua carreira. Começou, então, o capítulo das improvisações. Esta adaptação até pareceu bem-sucedida na altura, mas sendo Corona um extremo de origem e alguém que fazia falta ao plano ofensivo do Porto, o correto seria tratar esta adaptação como algo temporário e contratar um lateral direito definitivo e imponente assim que a oportunidade surgisse. O verão de 2020 chegou. Com ele vieram Nanú (Marítimo) e Carraça (Boavista). Manafá foi titular e Corona continuou, esporadicamente, a fazer o papel de lateral. Até que, na reta final da época 2020/21, a solução inesperada apareceu. Conceição viu em João Mário, extremo jovem da formação, um possível lateral. João Mário esteve à altura do desafio nos últimos jogos de 20/21. Em 2021/22, fez uma boa época, ostentando o título de dono da posição, mas alguns problemas físicos que o mesmo sofreu na segunda metade da temporada fizeram abanar o dragão.
Com a lesão de longa duração contraída por Manafá e a saída de Nanú em janeiro, a posição foi ora desempenhada por Bruno Costa, ora desempenhada por Pepê, sempre que João Mário estivesse indisponível. Ou seja, os laterais direitos do Porto eram nada mais, nada menos do que dois extremos e um médio. A situação podia ter sido corrigida no mercado de verão de 2022. Não foi. O Porto continuou com a mesma escassez de opções para a posição. E, pior ainda, João Mário começou a cometer falhas defensivas graves com elevada frequência. A solução que Sérgio Conceição tem de levar a cabo para lidar com esta má forma é colocar Pepê no seu lugar. Assim, a debilidade defensiva no lado direito da defesa continua e perde-se um dos mais influentes jogadores no esquema ofensivo do Porto. Mas que outra opção Sérgio tem? Parece inacreditável, mas o Futebol Clube do Porto, clube de futebol profissional que luta por todos os troféus que disputa, não tem um único lateral direito (reparar que Manafá recuperou há muito pouco tempo de lesão e ainda deverá levar tempo a reintegrar-se, não tendo sido sequer inscrito para a Champions (e, mesmo assim, Manafá não é propriamente um lateral luxuoso)).
Dossiê “novo-Vitinha”
Em 2021/22 o Porto aprendeu o que um bom e diferenciado médio criativo pode fazer por uma equipa. Vitinha revolucionou completamente a forma de jogar do Porto, convertendo o futebol pobre de 2020/21, que tinha, na figura de Sérgio Oliveira, um médio mais agressivo e direto, no futebol perfumado de 21/22, época histórica para o Porto. Por isso, quando Vitinha saiu, era clara a necessidade de contratar um jogador com perfil similar para manter a máquina a funcionar. Uribe e Grujic nunca seriam esses jogadores, Bruno Costa definitivamente não, mas Eustáquio talvez fosse o mais próximo do atual jogador PSG, ainda que a uma longa distância. Mais tarde, André Franco juntou-se ao navio, mas com um perfil mais similar ao de Fábio Vieira, que também saiu do Porto em 2022, do que ao de Vitinha. Portanto, ainda se esperava o tal “novo Vitinha”. Mas esse nunca veio, não passou de uma lenda urbana. Eustáquio parece agora a aposta de Conceição para esse posto, mas claramente precisa de ser muitíssimo trabalhado para tal (o jogo com o Brugge, onde a falta de ligação e de criatividade imperou, mostrou bem isso). Neste momento, a única esperança parece, e concordando, uma vez mais, com o comentador Tomás da Cunha, que André Franco vire Vitinha da noite para o dia (o que parece improvável).
Os culpados e a maior das vergonhas
Com um planeamento de plantel amador como este, a culpa é de quem? Do treinador, que não é capaz de fazer mil e um milagres? É evidente que a derrota pesada contra o Brugge foi, mesmo assim, inaceitável, mas o ponto aqui é mostrar que, com uma gestão desportiva desta qualidade, os adeptos do Porto terão de começar a habituar-se a resultados menos positivos nas competições europeias e a lutas menos ambiciosas pelo título nacional. E isso aplica-se já a esta temporada.
Todos nós conseguimos identificar os culpados desta situação. E não são os jogadores, o treinador ou o centralismo.
Depois do jogo, a vergonha maior aconteceu fora do estádio. A família do treinador do FC Porto foi covardemente atacada e intimidada. Há certas suspeitas em relação a quem terá cometido este crime, até pelos atritos que Conceição teve recentemente com uma certa claque portista. Mas serão as autoridades (esperamos nós) a apontar o veredito final, como é óbvio. O importante para mim é destacar que nesse dia, 13 de setembro de 2022, em que tal se sucedeu, Sérgio Conceição ganhou todo o direito de sair do FC Porto. Desde então, cada dia é um bónus. E se ele optar por sair – decisão que será totalmente compreensível – eu relembrá-lo-ei como aquilo que ele sempre foi e continua a ser: um treinador extraordinariamente competente, que sempre fez e continua a fazer muito com o pouco que sempre lhe deram e continuam a dar.
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