The Beatles: uma história

 1.1 John Lennon e a formação dos Quarrymen

Em 1956, John Winston Lennon, um adolescente “liverpudliano” de 15 anos, fez jus à moda da época e fundou uma banda, à qual deu o nome “The Quarrymen”, uma vez que ele e os seus colegas de escola, com os quais formou o grupo, frequentavam a Quarry Bank High School. Este jovem teve, desde cedo, uma relação atípica e melancólica com os pais. O seu pai, Alfred Lennon, combatia na Segunda Guerra Mundial aquando do seu nascimento, em 1940, pelo que esteve ausente nas primeiras etapas da sua vida. Mesmo após o término do conflito, o pai de John mostrou pouco interesse em conhecer o seu filho, acabando por abandonar a família após tê-lo visto apenas poucas vezes. Quando o filho alcançou a fama, Alfred tentou restabelecer contacto com ele, mas John nunca permitiu que entre os dois houvesse proximidade. A mãe, Julia Lennon, sofria de complicações mentais, pelo que a custódia de John foi reservada à sua tia, conhecida por “Mimi”. Ainda assim, Julia visitava o seu filho com bastante frequência; aliás, foi ela quem o inspirou a imergir-se no mundo da música. Foi ela que o ensinou a tocar o banjo e o ukulele, além de ter sido ela a comprar-lhe a sua primeira viola. A morte de Julia, fruto de um brutal atropelamento, impactou John severamente - ele que tinha apenas dezassete anos quando esta tragédia o assolou. Mais tarde, escreveu músicas como “Julia” (1968, The Beatles) e “Mother” (1970, solo) em sua homenagem, apesar de nelas ter feito questão de expressar as mágoas que ainda sentia face à sua relação com os pais.

  

 

1.2 Paul McCartney

No dia 6 de julho de 1957, uma apresentação ao ar livre dos Quarrymen chamou a atenção de um rapaz de 15 anos que fazia parte da audiência. No final do concerto, esse rapaz foi apresentado a John Lennon, líder do grupo, por amigos que os dois tinham em comum. Depois de uma curta conversa, o rapaz, que trazia consigo uma guitarra, começou a demonstrar o seu talento. John ficou tão impressionado com os seus dotes musicais que imediatamente o convidou a juntar-se à banda, convite esse que, alguns dias depois, foi aceite pelo rapaz. Assim, os Quarrymen tinham um novo membro: James Paul McCartney. Foi graças à influência do seu pai, um músico, que Paul deu os primeiros passos na música, brincando com o piano que havia em casa. A mãe de Paul, Mary McCartney, falecera em 1956, vítima de cancro da mama. Essa perda afetou a vida e o crescimento de Paul, mas também contribuiu para a fundação da sua amizade com John, que viria a experienciar o mesmo.


 

                                      Paul é o segundo rapaz da foto a contar da esquerda; está em plano principal 


1.3 George Harrison

Desde a sua entrada na banda, Paul pedia constantemente que John conhecesse um amigo seu, que havia conhecido num autocarro a caminho da escola. De acordo com Paul, o talento desse rapaz, no que a tocar guitarra dizia respeito, era incrível - algo que John pôde, de facto, testemunhar, após a primeira audição que fizeram. No entanto, a tenra idade do rapaz, que tinha apenas 15 anos (enquanto Lennon tinha já 18) foi um fator determinante para que John não o aceitasse na banda. Contudo, com a ajuda da insistência de Paul, foi feita uma segunda audição, após a qual John cedeu, não tendo outra escolha senão convidá-lo a integrar o grupo. Assim, em 1958, os Quarrymen obtiveram um novo integrante: George Harrison. George não tem um passado tão passível de ser explorado como os de John e Paul. A única informação relevante acerca dos seus pais é que a sua mãe, Louise French, queria, acima de tudo, que os seus filhos fossem felizes, pelo que incentivou a que George seguisse uma carreira musical.

 

 

                                                George é o primeiro rapaz a contar a partir da esquerda 


1.4 Origens socioeconómicas

John, Paul e George não nasceram em berço de ouro – bem pelo contrário; eram três jovens de classe trabalhadora que cresceram numa cidade de Liverpool profundamente marcada pelos terrores da Segunda Guerra Mundial. Não era anormal que crianças como eles, que nasceram no início da década de 40, brincassem em ruínas que outrora haviam sido edifícios. Contudo, uma iniciativa do governo britânico, que visava promover a ascensão social às classes mais baixas, deu-lhes a possibilidade de exceder a geração anterior em termos financeiros - aos 11 anos, os três prodígios dos Quarrymen fizeram um teste psicotécnico que, em poucas palavras, os qualificava como “inteligentes”. Por esse motivo, tiveram a oportunidade de estudar em bons estabelecimentos de ensino, em zonas de Liverpool mais prósperas do que aquela em que viviam.

 


2.1 De Quarrymen a Beatles

Em 1960, os Quarrymen decidiram mudar de nome, visto que já nenhum dos integrantes da banda frequentava a escola Quarry Bank. Após diversas variações, que acabaram por durar pouco tempo, os The Quarrymen, na altura formados por John, Paul, George e pelo baixista Stuart Sutcliffe, finalmente se tornaram, de forma definitiva, nos The Beatles. A teoria mais aceite relativamente à escolha do nome (e que foi contada por John numa entrevista) é a seguinte: os quatro rapazes eram grandes fãs de um músico norte-americano chamado Buddy Holly, vocalista, guitarrista e compositor dos The Crickets - nome que em português significa “Os grilos”, mas que também se pode referir ao cricket (desporto). Tendo essa banda originária dos Estados Unidos como inspiração, os Quarrymen também procuravam um nome que tivesse dois significados distintos. Eventualmente, chegaram a Beatles, nome que, ao ser lido, soa a “beetles” (besouros), mas que, ao ser escrito, alude à palavra “beat”, um termo famoso na música e que também é a designação de um estilo musical desenvolvido no Reino Unido, no início dos anos 60, que se baseava nos estilos pop e rock. No mesmo ano em que se tornaram Beatles, os quatro membros da banda receberam uma oferta para fazer uma série de concertos num bar em Hamburgo, durante várias semanas seguidas, oferta que eles aceitaram. Como o contrato exigia que a banda tivesse cinco integrantes, foram acompanhados do baterista Pete Best. Mais tarde, Suart acabou por abandonar a banda, que ficou apenas composta por John, Paul, George e Pete. Em 1962, o empresário da banda, Brian Epstein, deu-lhes a melhor notícia que podiam ouvir: tinha chegado a um acordo com uma gravadora para lançar os primeiros singles e o primeiro álbum dos Beatles.

 

 

                                                              The Beatles em Hamburgo, 17 de agosto de 1960 


2.2 Ringo Starr

No entanto, antes de partir para o estrelato, John, Paul e George sabiam que precisavam de deixar a bateria encarregue a alguém mais competente do que Pete Best. Por isso, concordaram em “despedir” Pete e convidaram um baterista com o qual já tinham tocado algumas vezes, mas que pertencia a outra banda de Liverpool. O tal baterista aceitou, pelo que os Beatles finalmente incorporaram a espinha dorsal que hoje conhecemos, com John, Paul, George e Ringo Starr. Ringo Starr é o nome artístico de Richard Starkey, um rapaz “liverpudliano” que teve uma infância bastante complicada. De acordo com o próprio, a sua morte foi sentenciada por três médicos distintos, em virtude do seu pobre estado de saúde. Com 13 anos, Ringo teve tuberculose e foi obrigado a passar dois anos num hospital. No entanto, como se tratava de um hospital que incitava os pacientes a terem contacto com a música, foi lá que Ringo se apaixonou pela bateria, tendo decidido que, quando de lá saísse, procuraria seguir uma carreira profissional como baterista.

 

  

2.3 Primeiros lançamentos

Com Ringo na bateria, os Beatles estavam prontos para gravar o seu primeiro single. “Love Me Do”, uma canção maioritariamente escrita por Paul McCartney, nos seus anos de escola, foi lançada em 1962, não tendo sido um grande sucesso. O mesmo não se pode dizer do lançamento que se lhe seguiu, “Please Please Me” (1963), que foi para o primeiro lugar de quase todas as tabelas do Reino Unido. Apesar do sucesso instantâneo, a qualidade dos lançamentos da banda insistia em não descer. Os singles seguintes, “From Me To You” e as famosas “She Loves You” e “I Want To Hold Your Hand”, explodiram todos os charts de uma maneira nunca antes vista (e talvez, até hoje, não novamente vista). O primeiro álbum do grupo, “Please Please Me”, também figurou no topo das paradas musicais e emplacou canções como “Twist And Shout” e “I Saw Her Standing There”. A escalada dos Beatles rumo ao estrelato foi rápida e concretizou-se em proporções descomunais. Aonde quer que os quatro jovens de Liverpool fossem, tinham pessoas, talvez até dezenas ou centenas, à espera para vê-los (apenas para vê-los, já que na altura não havia selfies). Este foi o início de um dos acontecimentos mais icónicos do século XX: a beatlemania.

 

2.4 A beatlemania

Para que se entenda o porquê de tamanho êxtase coletivo acerca dos Beatles, é necessário ter a noção de que as suas canções, apesar de hoje poderem parecer tradicionais, eram, na altura, diferentes de tudo aquilo que existia. Os quatro jovens foram capazes de criar um estilo próprio, criando música positiva, energética e excitante. Além disso, até os Beatles terem surgido, o show business britânico era uma cópia descarada do show business norte-americano. Para cada Elvis Presley ou Frank Sinatra, havia um “British Elvis” ou um “British Sinatra”. Os Beatles inverteram esse cenário, atrevendo-se a inovar como ninguém mais tinha inovado. Um sinal desse atrevimento foi o facto de os primeiros singles da banda e a maioria das músicas dos primeiros álbuns serem canções escritas pela dupla Lennon-McCartney – algo profundamente anormal, visto que a maioria das bandas e dos artistas interpretavam músicas escritas por terceiros. “Não é assim que funciona!” foi o que as pessoas provavelmente lhes disseram, mas a audácia em fazer as coisas à sua maneira provou-se acertada. Um ano ou dois depois de os Beatles terem aparecido, todos já tentavam, pelo menos, imergir-se no mundo da composição de canções (o que não se tratou de uma coincidência). A beatlemania marcou o início de uma nova era. Finalmente, havia esperança em fechar o período pós-guerra e iniciar uma nova etapa. As cores começaram a parecer mais brilhantes; tudo parecia novo, aonde quer que se olhasse. Por isso se diz que os Beatles foram “agentes da mudança” e “agentes da modernização”. Quem mais se emancipou neste período foram os jovens, que começaram a rebelar-se e a distanciar-se daquilo que os seus pais queriam que eles fossem; sendo, ao invés disso, aquilo que os próprios queriam ser. Foi com a beatlemania que o gosto dos jovens deixou de ser ignorado e passou, aliás, a ser responsável por definir as tendências - afinal de contas, se os Beatles eram um fenómeno era porque os jovens assim o queriam. Por isso, não é coincidência que a década de 60 tenha sido marcada por mudanças sociais e por movimentos estudantis; tudo esteve relacionado à tão célebre beatlemania.

  

 

2.5 À conquista dos EUA

Depois de se tornarem estrelas no Reino Unido, os Beatles atreveram-se a fazer o que nenhuma outra banda ou artista britânico alguma vez fizera: partiram à conquista dos Estados Unidos. A chegada da banda a solo americano, no dia 7 de fevereiro de 1964, ficou marcada por uma receção efusiva de multidões de fãs em êxtase. Mal chegaram, os quatro rapazes começaram a impressionar o país numa conferência de imprensa feita no próprio aeroporto, na qual os Beatles mostraram aos EUA um dos seus principais traços: o seu humor. A fuga ao politicamente correto e ao discurso padrão surpreendeu os americanos, que puderam testemunhar que estes jovens eram inteligentes e originais, características extremamente raras em popstars como eles. O momento mais marcante da estadia dos Beatles na América foi a sua aparição no Ed Sullivan Show, no dia 9 de fevereiro de 1964, na qual fizeram um breve concerto que foi assistido por 73 milhões de pessoas em simultâneo. Até hoje, este acontecimento é um dos mais marcantes da história da televisão. Um país inteiro parou para ver e ouvir os Beatles; inclusive, foi mais tarde dito que, durante os 10-15 minutos em que a banda atuou, o país ficou livre de crimes, isto é, até os criminosos pararam para os ver. Era, portanto, oficial: os Beatles tinham penetrado nos Estados Unidos. Isto também fez com que o público americano se interessasse mais em conhecer outros grupos britânicos, daí bandas como The Rolling Stones, The Who e The Byrds terem conquistado fama na América, marcando aquela que ficou conhecida como “A Invasão Britânica”.

 

3.1 Evolução da música: fase psicodélica, experimentalismo e movimento de vanguarda

Alguns meses depois da conquista dos EUA, os Beatles lançaram o filme “A Hard Day’s Night”, um verdadeiro sucesso de público e de crítica. O álbum homónimo, que sucedeu a “Please Please Me” e a “With The Beatles”, contém canções como “A Hard Day’s Night”, “Can’t Buy Me Love” e “And I Love Her”.

 

Em novembro, lançaram o álbum “Beatles For Sale”, cuja capa revela claros sinais de exaustão face ao período de beatlemania. Apesar de ser um dos menos conceituados álbuns da banda, alberga a clássica “Eight Days A Week”, além de outras aclamadas canções.

 

 Em julho de 1965, foi lançado o segundo filme dos Beatles, “Help!”, acompanhado do álbum homónimo. Apesar de o filme não ter sido muito bem recebido pela crítica, o álbum que o acompanha contém dois dos maiores clássicos da banda: a própria “Help!” e a lendária “Yesterday”, que é, até hoje, a música mais regravada da história.

 

Em dezembro de 1965, o lançamento do álbum “Rubber Soul”, o sexto da banda, chocou o público, que testemunhou um brusco salto de complexidade e maturidade. A qualidade das canções é tamanha que não parece um álbum, mas sim uma compilação. Ainda assim, as mais prestigiadas são “Norwegian Wood (This Bird Has Flown)”, “Nowhere Man”, “Girl” e “In My Life”. Foi neste álbum que os Beatles abandonaram as canções juvenis e inocentes sobre amor e começaram a escrever letras mais profundas. Um exemplo disso é verificado em “Girl”, na qual constam os seguintes versos:

Was she told when she was young

That pain would lead to pleasure?

Did she understand it when they said

That a man must break his back

To earn his day of leisure?

Will she still believe it when he's dead?

 A 5 de agosto de 1966, os Beatles lançaram o álbum “Revolver”, que selou o processo de transformação musical do grupo. Além disso, marcou o início do uso do adjetivo “psicodélica” para descrever a música da banda, um termo que não era, até então, muito conhecido. Entre as 14 canções de “Revolver”, destaca-se a sombria “Eleanor Rigby”, mas também “I’m Only Sleeping”, “Here, There And Everywhere” e “For No One”, entre várias outras.

 

Em 1966, pouco depois do lançamento de “Revolver”, os Beatles anunciaram a sua reforma dos palcos para se focarem exclusivamente em produzir música no estúdio. Foi então que começou a ganhar forma o oitavo e mais aclamado álbum da banda: “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Lançado no dia 1 de junho de 1967, é considerado o álbum mais revolucionário da história da música, além de ser um dos mais conceituados. Tudo nele é icónico: desde o conceito até à capa, passando pelos seus sofisticados sons. Acima de tudo, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” mudou a forma como se pensava em álbuns: já não como meros conjuntos de canções, mas como verdadeiras obras de arte. Até hoje, pessoalmente, é uma experiência verdadeiramente impressionante ouvir este álbum do início ao fim.

 

  

Também em 1967, os Beatles lançaram o seu terceiro filme: “Magical Mystery Tour”. O filme revelou-se um pleno fracasso; mas, com o álbum homónimo, aconteceu precisamente o contrário. “Magical Mystery Tour” contém simplesmente vários dos maiores clássicos da banda: “I Am The Walrus”, “Hello, Goodbye”, “Strawberry Fields Forever”, “Penny Lane” e “All You Need Is Love”, além das brilhantes “The Fool On The Hill”, “Your Mother Should Know” e “Baby, You’re A Rich Man”. Podia ser uma compilação de melhores canções, mas era apenas um álbum - esse era o nível dos Beatles, banda que não só era a mais comercial do mundo, mas também a mais experimental e avant-garde.

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Os membros da banda passaram os primeiros meses de 1968 num retiro, na Índia, a explorar a cultura e a meditação locais, que eram tendências na época. A experiência na Índia inspirou bastante a criatividade do quarteto daí em diante; inclusive, a mesma se refletiu no álbum “The Beatles”, conhecido popularmente como “The White Album” (O Álbum Branco), lançado como disco duplo em novembro de 1968. Ao contrário do que se possa pensar, a qualidade não desceu face aos lançamentos de 1967; aliás, vários fãs consideram este o melhor álbum da banda. Contém múltiplos clássicos: “Back In The U.S.S.R”, “Dear Prudence”, “Ob-La-Di, Ob-La-Da", “While My Guitar Gently Weeps”, “Happiness Is A Warm Gun”, “Martha My Dear”, “I’m So Tired”, “Blackbird” e “Helter Skelter”. Os anos de estúdio dos Beatles confirmaram que os quatro jovens de Liverpool, mais do que músicos, eram artistas.

 


3.2 Ativismo

A irreverência que os Beatles demonstravam em entrevistas fez com que a imprensa concluísse que estes artistas eram, além de inteligentes, homens de fortes opiniões. Por esse motivo, os Beatles começaram a ser questionados acerca de política e problemas sociais, como a Guerra do Vietname. Este fenómeno foi revolucionário, uma vez que era extremamente incomum que músicos falassem de algo que ultrapasse a sua especialidade. O quarteto adotou a paz e o amor como os seus valores principais face àquilo que acontecia no mundo e transmitiram-nos nas suas canções.

The Word (Rubber Soul, 1965):

Spread the word and you’ll be free

Spread the word and be like me

Spread the word I’m thinking of

Have you heard the word is “love”?

 

Cerca de um mês depois do lançamento do histórico “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, os Beatles foram convidados para fazer uma performance ao vivo na primeira transmissão por satélite para todo o mundo. Ao invés de promover alguma das canções do novo álbum, a banda preferiu estrear, para uma audiência de 300 milhões de pessoas, a canção “All You Need Is Love”, que se tornou uma das mais famosas da história da música.

 

Em 1968, John Lennon, quem sobretudo esteve por trás deste ativismo promovido pela banda, expôs as suas crenças pessoais de forma mais profunda e detalhada em “Revolution”.

You say you want a revolution

Well, you know

We all want to change the world

(...)

But when you talk about destruction

Don't you know that you can count me out (in) - a palavra em parêntesis expressa a dúvida de Lennon

(...)

You say you got a real solution

Well, you know

We'd all love to see the plan

You ask me for a contribution

Well, you know

We're all doing what we can

(...)

 

3.3 Fim dos Beatles

A relação entre os membros da banda começou a piorar durante as gravações do “White Album”, com Ringo Starr a ter mesmo chegado a abandonar o grupo (tendo acabado por voltar atrás na decisão). Em janeiro de 1969, os Beatles iniciaram um projeto que visava a elaboração de um novo álbum e a organização de um concerto ao vivo. Esse processo foi gravado, tendo dado origem à minissérie de documentários da Disney +, “The Beatles: Get Back”, lançada em novembro de 2021 e que capturou a genialidade dos quatro artistas, mas também o quão mau estava o relacionamento entre eles. Os egos de John e Paul e a presença de Yoko Ono, esposa de John, nas gravações, foram alguns dos principais fatores para esse clima hostil. George, que ao longo dos anos foi ganhando cada vez mais prestígio como compositor, via muitas das suas canções serem vetadas por Paul e John, apesar de estar na sua melhor fase no que à composição dizia respeito. Em virtude do seu descontentamento, George chegou a sair da banda, mas regressou depois de cinco dias.

Mesmo com um ambiente deplorável no estúdio, os Beatles foram capazes de fazer história. No dia 30 de janeiro de 1969, subiram ao telhado do estúdio para fazer um concerto de 42 minutos, que ficou muito famoso; não apenas pelo seu conceito anormal (afinal de contas, fizeram um conceito num telhado de um edifício), mas também por ter sido a última apresentação ao vivo da banda.

 

A genialidade dos Beatles ficou mais uma vez patente - desta vez no dia 26 de setembro de 1969 - com o lançamento do álbum “Abbey Road”. Conhecido pela sua famosa capa, "Abbey Road” contém vários clássicos e é considerado pela Rolling Stone o melhor álbum dos Beatles, ainda que tenha sido feito sob um clima de tensão e de pouca cordialidade. As canções de maior destaque são as duas obras-primas de George Harrison, “Something” e “Here Comes The Sun”, mas também merecem destaque outras, como “Come Together”, “Oh! Darling”, “I Want You (She’s So Heavy)” e “Because”.

 

 

No dia 20 de setembro de 1969, ainda antes do lançamento de “Abbey Road”, John anunciou aos seus colegas a sua saída da banda. Contudo, só em 1970 o grupo anunciou oficialmente a sua dissolução. Já depois do término da banda, foi lançado, no dia 8 de maio de 1970, o último álbum dos Beatles, “Let It Be”. Mesmo que não seja um dos álbuns mais conceituados do quarteto e que tenha sido desenvolvido em condições pouco agradáveis, “Let It Be” contém vários clássicos: “Across The Universe”, “I Me Mine” e “For You Blue”, de George Harrison”, “Get Back” (que inicialmente daria nome ao álbum), a emocionante “The Long And Winding Road” e a própria “Let It Be”.

 

4. Legado

É inegável: existe música “Pré-Beatles” e “Pós-Beatles”. Contudo, os Beatles não só revolucionaram a indústria musical como também foram fortes influenciadores da cultura popular, tendo sido agentes da mudança e da modernização num mundo pós-guerra e tendo promovido a emancipação dos jovens, das mulheres e dos mais oprimidos pela sociedade. Foram responsáveis pelo fenómeno da “Invasão Britânica”, além de serem a banda mais vendida da história, a banda com mais álbuns no topo das paradas britânicas e de serem considerados pela Billboard os artistas mais bem-sucedidos de todos tempos. O Dia Mundial dos Beatles é celebrado pela UNESCO desde 2001, acontecendo todos os anos no dia 16 de janeiro. Apesar de o seu legado se estender muito para lá da música, são incontáveis as mudanças que os Beatles promoveram nesse ramo. Foram os primeiros artistas a fazer um concerto num estádio desportivo, foram eles os responsáveis por generalizar a escrita de canções, foram os criadores daquilo que viria a ser conhecido como “videoclipe” e foram eles que experimentaram de tudo, expondo a sua legião de fãs a todo o tipo de sons e culturas diferentes. Acima de tudo, não tiveram medo de mudar e fizeram as coisas à sua maneira. Foram ousados e rebeldes – e é isso que todos os jovens devem ser, em certa medida. Toda a forma como hoje se faz música tem o cunho pessoal dos Beatles: quatro rapazes de Liverpool que, usando os seus incríveis talentos, partiram da classe trabalhadora e rumaram ao estrelato, criando um impacto gigante em toda uma geração.

 


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